Finnegans, Wake!
Eu queria estar em ritmo de contagem regressiva, mas não tá dando tempo pra contar.
No final de abril acontece o Belfast Film Festival, e um dos eventos programados vai acontecer no SARC: um concerto com 4 peças inéditas, cada uma musicalizando um trecho do Finnegans Wake, de James Joyce – mais exatamente, uma adaptação pra cinema feita em 1966. Eu me candidatei e “voilà”: a primeira cena do filme é minha. Doze minutos de música, para o que houve de mais abstrato na história da literatura mundial.
Agora não sei se comemoro ou se choro: vai ser a primeira música minha tocada no SARC, e isso me dá nos nervos. Pra completar, eu não tenho até o final de abril (data do concerto) pra cuidar disso, porque daqui a três semanas embarco pro Brasil. E não posso levar o computador pra terminar o trabalho no Brasil, porque a Receita Federal não vai deixar. Sem falar que isso não conta em nada pro doutorado, e o doutorado não pode parar. Então, pra resumir, entrei num “composer’s block” danado com essa pressão aí, e tá difícil escrever qualquer coisa que preste.
Se alguém tiver alguma sugestão pra resolver esse pepino, tô aceitando!
Girl from Ipanema
Eu acho que toda faculdade de música deveria ter um espaço onde vale tudo. Onde se pudesse deixar a formalidade técnica de lado e experimentar, improvisar, assumir riscos. A Queen’s University tem isso. O grupo se chama QUBe (Queen’s University Belfast Ensemble), e todo ensaio tem novidade – hoje, por exemplo, começamos com uma peça pra bolinhas de ping-pong quicando sobre uma dúzia de cowbells em afinações diferentes; semana passada improvisamos uma trilha sonora pra filmagens das ruas de Belfast feitas na década de 10 (do século passado). É esse o espírito. Hoje, já no final do ensaio, tentávamos decidir como terminar uma peça de um professor nosso, o Steve Davis, chamada “Impostor”. Não sei de onde veio a ideia, mas lá pelas tantas alguém sugeriu: “a gente corta tudo e toca “The Girl from Ipanema”! Eu não entendi do que ele tava falando: por mais familiar que seja, “Ipanema” na pronúncia de um irlandês empolgado soa como grego. A ficha caiu quando metade da sala passou a entoar a melodia na ponta da língua. Por mais bobo que isso seja, eu não pude controlar o orgulho e toquei minha primeira bossa-nova ao piano desse lado do oceano. Até aí ninguém nem tinha se tocado que eu era brasileiro, ou que a música é brasileira, sei lá. Mas foi uma boa surpresa ver que tanta gente conhecia a melodia – e alguns até arriscaram a letra em português!
Na verdade, eu nem deveria ficar surpreso. Faz tempo que eu quero comentar isso, mas nunca lembro. Hoje tive a deixa. A música brasileira é muito mais conhecida do que a gente imagina. E hoje em dia vai muito além do clichê: eu escutei um disco inteiro da Céu em uma rádio de Budapeste, e naquela semana que passei lá escutei música brasileira várias vezes dentro dos bares. O mesmo aconteceu em Madrid, e aqui em Belfast também: Tribalistas, Seu Jorge, Adriana Calcanhotto, Bossacucanova, todos tocando casualmente por aí. Sem falar nos Mutantes, que eu não escutei aqui mas já me perguntaram várias vezes.
É uma pena que, pelo visto, a dinâmica comercial seja a mesma das laranjas, cebolas e maçãs: as engolíveis vêm pra cá, o resto vai parar na fruteira do Mercadorama. Ou nas tardes de domingo da televisão brasileira.
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