Girl from Ipanema
Eu acho que toda faculdade de música deveria ter um espaço onde vale tudo. Onde se pudesse deixar a formalidade técnica de lado e experimentar, improvisar, assumir riscos. A Queen’s University tem isso. O grupo se chama QUBe (Queen’s University Belfast Ensemble), e todo ensaio tem novidade – hoje, por exemplo, começamos com uma peça pra bolinhas de ping-pong quicando sobre uma dúzia de cowbells em afinações diferentes; semana passada improvisamos uma trilha sonora pra filmagens das ruas de Belfast feitas na década de 10 (do século passado). É esse o espírito. Hoje, já no final do ensaio, tentávamos decidir como terminar uma peça de um professor nosso, o Steve Davis, chamada “Impostor”. Não sei de onde veio a ideia, mas lá pelas tantas alguém sugeriu: “a gente corta tudo e toca “The Girl from Ipanema”! Eu não entendi do que ele tava falando: por mais familiar que seja, “Ipanema” na pronúncia de um irlandês empolgado soa como grego. A ficha caiu quando metade da sala passou a entoar a melodia na ponta da língua. Por mais bobo que isso seja, eu não pude controlar o orgulho e toquei minha primeira bossa-nova ao piano desse lado do oceano. Até aí ninguém nem tinha se tocado que eu era brasileiro, ou que a música é brasileira, sei lá. Mas foi uma boa surpresa ver que tanta gente conhecia a melodia – e alguns até arriscaram a letra em português!
Na verdade, eu nem deveria ficar surpreso. Faz tempo que eu quero comentar isso, mas nunca lembro. Hoje tive a deixa. A música brasileira é muito mais conhecida do que a gente imagina. E hoje em dia vai muito além do clichê: eu escutei um disco inteiro da Céu em uma rádio de Budapeste, e naquela semana que passei lá escutei música brasileira várias vezes dentro dos bares. O mesmo aconteceu em Madrid, e aqui em Belfast também: Tribalistas, Seu Jorge, Adriana Calcanhotto, Bossacucanova, todos tocando casualmente por aí. Sem falar nos Mutantes, que eu não escutei aqui mas já me perguntaram várias vezes.
É uma pena que, pelo visto, a dinâmica comercial seja a mesma das laranjas, cebolas e maçãs: as engolíveis vêm pra cá, o resto vai parar na fruteira do Mercadorama. Ou nas tardes de domingo da televisão brasileira.
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Lindinho! Vou usar o seu texto lá na Universidade e mandar pra alguns colegas professores. Muito bom, muito bom! Abraço!
Gre.