Tchê e os Duendes

procurando feijões. um de cada vez.

sobre tudo o que passa

É costume nas cafeterias daqui desenhar figuras sobre a espuma do capuccino. São feitas com fios muito finos de chocolate ou canela, e os temas não variam muito: flores e folhas são a regra geral – as de plátano são sempre favoritas. Beber o café vira uma experiência complexa. É preciso decidir entre misturar a espuma ao café logo no primeiro momento, destruindo a imagem, ou tentar preservá-la até o último instante. De toda forma, mais cedo ou mais tarde aquela figura, produto único e individual do cuidado de alguém, vai deixar de existir.

Existe algo de paradoxal nisso. A consciência do efêmero, do finito, não é uma característica do Ocidente. A folha de plátano talhada sobre a espuma faz lembrar, guardadas as imensas proporções, as esculturas em areia tradicionais de algumas culturas – são bem conhecidos os exemplos dos índios Navajo, na América do Norte, os Aborígenes e principalmente as mandalas tibetanas. Nesses casos, imagens de extrema complexidade são esculpidas por um sábio ou artesão, derramando-se pequenas quantidades de areia colorida sobre uma superfície. A obra só adquire sentido em função do ritual do qual faz parte; deve ser destruída imediatamente, criando o espaço para seu próprio recomeço.

Nós, herdeiros de uma cultura egoísta e imediatista, temos dificuldade em aceitar o evanescente, aquilo que vem e que passa. Ver a escultura em areia, resultado de semanas de trabalho dedicado, destruir-se pelas mãos do próprio criador, nos enche de pena, nos machuca de alguma forma. Nossa sede de abraçar o mundo é insaciável. É preciso fotografar, gravar, registrar a tudo e a todos de todas as formas; caso contrário, sentimos a experiência nos fugir por entre os dedos. Somos reféns de uma memória cheia de limites e idiosincrasias, e que alimentamos a ilusão de dominar.

Eu falava outro dia sobre a falta de autenticidade de Londres; era exatamente isso. Milhares de japoneses tirando milhões de fotos a cada dia. Fotografando Londres, mas nunca vivendo Londres. Quantas pessoas realmente vivem Londres? Quem é que sabe o que Londres realmente é?

Os filosófos modernos chamam a isso “economia da reprodução”, que veio substituir a antiga “economia da representação” assim que as tecnologias de reprodução se universalizaram a partir de fins do século XIX – o filme fotográfico, o fonógrafo, a fotocópia. Walter Benjamin fala do “desejo das massas contemporâneas de trazer as coisas ‘mais pra perto’, em termos espaciais e humanos, que é tão ardente quanto a tendência de abrir mão da singularidade de cada realidade ao aceitar sua reprodução”.

Pensando nisso, eu saí da cafeteria e andei pela rua dos sebos e brexós. Quem anda por essas lojas de velharias percebe que existe uma atmosfera diferente ali dentro, algo de mais humano e autêntico do que as roupas com a etiqueta da Marks & Spencer (a C&A daqui). Cada objeto ali é único, carrega uma história, tem um significado próprio. Walter Benjamin, se estivesse vivo e eu merecesse um comentário de figura tão digna, certamente me alfinetaria dizendo que esses pôsteres antigos, CDs, livros e camisas tão listradas quanto esquecidas, também foram produto de moldes algum dia, e hoje integram um novo ciclo de simulação – pro qual ele daria um nome sofisticado, tipo “fetiche do colecionador”. E eu, com minha humildade terceiro-mundista, alfinetaria de volta dizendo que é mais-ou-menos nesse ponto de abstração que a filosofia começa a virar uma disciplina neurótica. Mas isso é papo pra outro dia.

Eu não tenho nenhum aforismo genial pra produzir como resultado disso tudo. A gente vai descobrindo coisas todos os dias, às vezes a partir de experiências tão pequenas, e tenta usá-las pra se transformar pra melhor. Mas, assim como as cafeterias, a gente talvez tenha algo pra aprender com os monges budistas e suas areias coloridas; a gente vive sob uma aspiração de controle que é essencialmente insaciável. Às vezes é preciso coragem pra afundar a colherinha e misturar a espuma ao café logo assim, de primeira, sem pensar. Isso é também um símbolo do estar ali, do viver ao invés de preservar. Difícil não derrapar nos clichês ou parecer um ripongo fora de época falando disso, mas toda geração tem seu fundo de verdade…

6 06UTC junho 06UTC 2010 - Publicado por | Uncategorized

4 Comentários »

  1. Puxa ,quanta filosofia! O tico eo teco entraram em parafuso para tentar entender ah, ah, ah….

    Comentário por eliza | 7 07UTC junho 07UTC 2010 | Responder

  2. bonito fefo, eu certamente tentaria transformar a folha desenhada no meu café em outro desenho, depois detruiria tudo na primeira golada.

    :*

    Comentário por juju | 11 11UTC junho 11UTC 2010 | Responder

  3. Esse pensamento já me ocorreu algumas vezes, principalmente quando eu comecei a usar minha câmera digital, que foi vc quem comprou, por sinal. rsrs Confesso que na época eu queria fotografar tudo, todos os momentos e comecei a me tocar de que às vezes eu deixava de viver as coisas pra ficar fotografando.Hoje já sei me controlar… hehehe
    Com as câmeras digitais essa vontade de querer guardar tudo em fotografias é muito mais tentadora. Mas sou do time: antes uma história pra contar do que uma fotografia pra mostrar.
    PS: não são só os japas que ficam fotografando o tempo todo! >=[

    Comentário por ana ká | 13 13UTC setembro 13UTC 2010 | Responder

  4. linda a analogia Fê

    Comentário por Luiza Falcoa | 6 06UTC dezembro 06UTC 2010 | Responder


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