Tchê e os Duendes

procurando feijões. um de cada vez.

quando o canário vira currupaco

Ontem levei um papo com um taxista. Quer dizer, foi um papo do tipo dos que eu levo com taxistas aqui – ele fala, eu finjo que entendo. E eles sempre falam. Dessa vez, como o assunto me era bem familiar, entendi o suficiente pra escrever aqui.
Era um apaixonado por futebol, como quase todos por essas bandas. Deixou todos os jogos da Copa gravando em casa, porque o aluguel do táxi custa £25 por dia e precisa de umas boas corridas por aqui pra cobrir isso – táxis em Belfast são muito baratos. Ele chega em casa de madrugada e assiste tudo o que consegue. O que me comoveu na conversa foi a decepção desse sujeito com a seleção brasileira – que ele obviamente despejou pra cima de mim com todo o gosto, enquanto eu não podia fazer nada além de concordar. Descreveu o que é o sentimento geral a respeito do Brasil – o que há de melhor, no esporte mais popular do planeta. Todo mundo gosta do melhor, do bem feito, do feito com vontade. Enche a gente de gosto, de esperança nas pessoas, naquilo que somos capazes de criar. Quando se trata de futebol, é só de 4 em 4 anos que as pessoas têm a chance de ver isso – quando chega a Copa, e o Brasil entra em campo. Nas palavras do taxista, é a primeira coisa que se faz quando sai a tabela de jogos – descobrir quando o Brasil joga.

Não sou um comentarista esportivo, e vou poupá-los de ecoar o senso-comum – “o Dunga acabou com a magia do futebol brasileiro”, etc etc. Quero falar sobre outra coisa. Vendo montes de irlandeses reunidos nos pubs pra ver o Brasil jogar, me ocorreu como não existe nenhum outro período no cotidiano internacional em que as atenções se voltem ao Brasil da maneira como acontece numa Copa do Mundo. Tivemos há pouco a intervenção na questão nuclear do Irã, que foi manchete no mundo todo; temos os biocombustíveis, o Lula, o Cidade de Deus, os Mutantes, os lutadores de jiu-jitsu, até os biarticulados de Curitiba (que eu desminto com todo o gosto do mundo!). Mas essas coisas dão uma projeção limitada a círculos específicos. Nada se compara a quando os canarinhos entram em campo. As pessoas estremecem, bilhões de pessoas. É o Brasil jogando. É o melhor que há.

Essa costumava ser uma repercussão extremamente positiva, na medida em que a seleção brasileira correspondia às mínimas expectativas, tirando felicidade da cartola mundo afora. Agora não é mais assim. É nessa medida que a derrota pra Holanda foi uma coisa muito maior do que um jogo de futebol. É a quebra de um encanto. Não somos um país conhecido em outros aspectos, e o futebol funcionava como um excelente cartão de visitas, que poderia abrir portas em direções mais concretas e importantes – turismo, geopolítica, cultura. Ou no mínimo costumava servir pras pessoas abrirem um grande sorriso quando eu dizia que sou brasileiro. Agora o que eu ganho é um suspiro resignado: “Vocês são o Brasil! Vocês são os melhores! Por que privar o resto do mundo do prazer de vê-los, do prazer de ver o melhor?”

Aqui, eu deixo pros comentaristas esportivos.

4 04UTC julho 04UTC 2010 Publicado por | Uncategorized | 2 Comentários

   

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