sobre brasileiros e derrotas
Enquanto assistia a um streaming capenga da última rodada do Brasileirão 2010, juntei as peças de um quebra-cabeça mental que andava desarrumado na minha cabeça há tempos. A conclusão apareceu numa frase, simples e direta: brasileiro não sabe perder.
Pois é, não sabe. Vou mencionar três episódios recentes, vindos de realidades bem diferentes, mas com esse traço em comum. Não é preciso muito esforço pra lembrar de outros.
Vou em ordem cronológica.
Episódio número 1: Eleições presidenciais 2010.
Um mês antes do primeiro turno, até as paredes sabiam quem seria o novo presidente da república. Não bastassem as pesquisas indicando vitória da candidata governista com ampla vantagem, todos os ventos sopravam a favor. Economia em ascensão, programas sociais, diplomacia em alta, não parecia haver nada no horizonte capaz de transformar os resultados. A campanha prosseguia de maneira civilizada: os governistas defendiam o governo, a oposição criticava de maneira consciente e construtiva. Seu lema, de grandeza e sabedoria política nunca dantes vista na histórica política do Brasil, era “O Brasil pode mais”. Admitir que existe algo de positivo na administração pública é algo que nenhuma oposição jamais havia feito. E eu pensava “ora bolas, que belo exemplo; parece que a democracia no Brasil finalmente saiu da adolescência”. Pois não durou.
Diante da derrota iminente, a oposição partiu numa cruzada medieval lançando mão de absolutamente tudo. Munido de argumentos que oscilavam entre o baixo e o inominável, um tiroteio cego e vazio tomou conta do país. A imprensa, cuja função no resto da civilização é esclarecer, buscar no meio do caos a informação que interessa, prestou à sociedade um enorme desserviço e resolveu entrar atirando também. Daí pra frente, todo mundo sabe. A derrota civilizada já não servia; era preciso vencer de qualquer jeito, não importando o quão sujo fosse o jogo. Enquanto isso, a maturidade da democracia vai ter que esperar mais um pouco.
Episódio número 2: Daniel Dantas perde causa na Corte Inglesa (http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1172212-EI6578,00.html).
O ponto aqui não é nem o mérito da questão, que não conheço a fundo (essencialmente, o Opportunity é acusado pela Justiça das Ilhas Cayman – uma antiga colônia inglesa – de fraudar documentos e valores de cotas de seus fundos de investimento). O interessante é reparar na maneira como transcorreu o processo. As decisões judiciais aqui no Reino Unido são extremamente rápidas, e as instâncias disponíveis para recurso são limitadas. Após uma investigação policial rápida e eficiente, a sentença de um assassino, por exemplo, é anunciada dentro de poucos meses. Pois acontece que o Daniel Dantas, acostumado a dispor livremente dos intermináveis subterfúgios e artifícios que o sistema judiciário brasileiro oferece aos abastados e espertalhões, não sabia disso. Como resultado, empurrou sua defesa até a Suprema Corte britânica – perdendo em todas as instâncias anteriores. Foi finalmente condenado de maneira inapelável, e vai ter que pagar o mais alto valor de custas da história daquela Corte. Moral da história: decidiu, tá decidido. Se quiser insistir sem razão e fazer os juízes perderem tempo, vai ter que pagar caro.
Episódio número 3: A mala branca do Corinthians.
Última rodada do Brasileirão. A matemática dizia que só havia um jeito do Corinthians ser campeão: vencendo sua partida contra o Goiás, e torcendo para que o Fluminense não vencesse o Guarani. Quer dizer, isso num mundo em que futebol se joga dentro de quatro linhas, e onde ganhar e perder são coisas da vida. Mas não para o Corinthians. Não que a mala branca seja uma invenção da equipe paulista – embora não fosse de se duvidar, visto que o Timão é notório por enfileirar títulos vencidos sob circunstâncias duvidosas. Mas aceitar que o título de campeão brasileiro já não dependia só de si, isso não dava. Foi uma semana inteira de trololó. Os jogadores do Guarani foram tratados como mercenários – e, o pior de tudo, parece que o chapéu lhes serviu. Mesmo já rebaixados e sem nenhum interesse na partida além do bicho corinthiano, jogaram como nunca. Não é de agora; todo ano é a mesma coisa. Se aparece qualquer denúncia desse tipo aqui pelo Reino Unido, não é só a punição que é séria. As pessoas têm vergonha. Isso falta no Brasil.
Essa investigação obviamente não termina numa conclusão tão simplista quanto “brasileiro não sabe perder”. É claro que esse comportamento em particular é parte de um contexto muito maior, que tem motivações e consequências de todos os tamanhos. O que deu pra concluir até agora é que trata-se de um sintoma da mesma fragilidade moral que difundiu pelo país essa instituição abominável que é o tal do “jeitinho brasileiro”. Mas esse assunto fica pra outro dia.
P.S.: Coincidentemente, nos três exemplos acima os inconformados acabaram de fato derrotados. Infelizmente, não é sempre assim. A choradeira, no Brasil, compensa.
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