tudo dito, do mesmo
Eu sei, mandei mal! Tava esperando juntar mais coisa pra dizer aqui, e não queria falar sobre o concerto do Finnegans sem ter o vídeo pra mostrar. Isso acabou demorando mais do que a encomenda, mas funcionou. O vídeo da minha peça tá aí abaixo, e o concerto não foi nada de provocar terremotos (ou vulcões, que continuam na moda), mas quem foi se divertiu. A parte mais legal foi a última peça. Ela era tocada ao vivo por um trio em cima do palco, um sujeito fazendo eletrônica ao vivo no meio da platéia e mais um saxofonista embaixo da platéia. Acho que nunca comentei aqui, mas o chão do Sonic Lab é uma grade de ferro sobre um fosso de 5 metros de profundidade. Esse fosso serve justamente pra esse tipo de experiência – funciona como mais um plano de espacialização, com 5 pares de alto-falantes em surround lá embaixo e mais a possibilidade de colocar músicos nessa posição baixa. Enfim, tinha um saxofonista lá embaixo tirando sons muito alucinados, e caminhando pelo espaço. A única luz em todo o auditório (além da tela projetando o filme) vinha justamente de lá, e era uma lanterna vermelha bem fraquinha. Isso tudo combinado com o estilo nada gracioso da composição deu um clima realmente sinistro – e muito bem-vindo – pro fim do concerto, que afinal tinha mesmo uma proposta bem experimental. Vocês vão ver aí pelo vídeo.
A outra grande novidade da semana foi a minha participação brilhante no futebol do SARC domingo passado. Depois de um mês no Brasil, eram grandes as expectativas gerais sobre o meu desempenho canarinho. E canastríssimo. Mal sabiam eles quanta perna de pau os esperava. Pra piorar a situação, choveu do início ao fim do jogo. Da próxima vez que eu assistir uma partida debaixo de frio e chuva pela TV, vou respeitar os jogadores um pouquinho mais. Porque dói! No final eu tinha dois picolés no lugar das mãos – tava quase parecido com o final da subida das Mourne Mountains, aquela tarde dramática!
Também tô colocando aí pra baixo um vídeo curtinho e engraçadinho de um dos últimos dias no Brasil. Ficou faltando eu agradecer geral aqui, porque esse mês que eu passei por aí não foi coisa pouca viu. Graças a vocês, embarcar nesse avião foi mais difícil do que embarcar naquele outro, 7 meses atrás. Tomara que seja sempre assim.
Finnegans, Wake!
Eu queria estar em ritmo de contagem regressiva, mas não tá dando tempo pra contar.
No final de abril acontece o Belfast Film Festival, e um dos eventos programados vai acontecer no SARC: um concerto com 4 peças inéditas, cada uma musicalizando um trecho do Finnegans Wake, de James Joyce – mais exatamente, uma adaptação pra cinema feita em 1966. Eu me candidatei e “voilà”: a primeira cena do filme é minha. Doze minutos de música, para o que houve de mais abstrato na história da literatura mundial.
Agora não sei se comemoro ou se choro: vai ser a primeira música minha tocada no SARC, e isso me dá nos nervos. Pra completar, eu não tenho até o final de abril (data do concerto) pra cuidar disso, porque daqui a três semanas embarco pro Brasil. E não posso levar o computador pra terminar o trabalho no Brasil, porque a Receita Federal não vai deixar. Sem falar que isso não conta em nada pro doutorado, e o doutorado não pode parar. Então, pra resumir, entrei num “composer’s block” danado com essa pressão aí, e tá difícil escrever qualquer coisa que preste.
Se alguém tiver alguma sugestão pra resolver esse pepino, tô aceitando!
Girl from Ipanema
Eu acho que toda faculdade de música deveria ter um espaço onde vale tudo. Onde se pudesse deixar a formalidade técnica de lado e experimentar, improvisar, assumir riscos. A Queen’s University tem isso. O grupo se chama QUBe (Queen’s University Belfast Ensemble), e todo ensaio tem novidade – hoje, por exemplo, começamos com uma peça pra bolinhas de ping-pong quicando sobre uma dúzia de cowbells em afinações diferentes; semana passada improvisamos uma trilha sonora pra filmagens das ruas de Belfast feitas na década de 10 (do século passado). É esse o espírito. Hoje, já no final do ensaio, tentávamos decidir como terminar uma peça de um professor nosso, o Steve Davis, chamada “Impostor”. Não sei de onde veio a ideia, mas lá pelas tantas alguém sugeriu: “a gente corta tudo e toca “The Girl from Ipanema”! Eu não entendi do que ele tava falando: por mais familiar que seja, “Ipanema” na pronúncia de um irlandês empolgado soa como grego. A ficha caiu quando metade da sala passou a entoar a melodia na ponta da língua. Por mais bobo que isso seja, eu não pude controlar o orgulho e toquei minha primeira bossa-nova ao piano desse lado do oceano. Até aí ninguém nem tinha se tocado que eu era brasileiro, ou que a música é brasileira, sei lá. Mas foi uma boa surpresa ver que tanta gente conhecia a melodia – e alguns até arriscaram a letra em português!
Na verdade, eu nem deveria ficar surpreso. Faz tempo que eu quero comentar isso, mas nunca lembro. Hoje tive a deixa. A música brasileira é muito mais conhecida do que a gente imagina. E hoje em dia vai muito além do clichê: eu escutei um disco inteiro da Céu em uma rádio de Budapeste, e naquela semana que passei lá escutei música brasileira várias vezes dentro dos bares. O mesmo aconteceu em Madrid, e aqui em Belfast também: Tribalistas, Seu Jorge, Adriana Calcanhotto, Bossacucanova, todos tocando casualmente por aí. Sem falar nos Mutantes, que eu não escutei aqui mas já me perguntaram várias vezes.
É uma pena que, pelo visto, a dinâmica comercial seja a mesma das laranjas, cebolas e maçãs: as engolíveis vêm pra cá, o resto vai parar na fruteira do Mercadorama. Ou nas tardes de domingo da televisão brasileira.
Hot Whiskey
Faz uns dias que uma dorzinha de garganta vem ameaçando no início da manhã, se esconde durante o dia, e nisso vai se repetindo. Ontem à noite fui a um pub, falei alto demais, e hoje acordei com um vozeirão de baixo profundo. Só que à noite tinha o aniversário do Rui, e eu não poderia faltar o aniversário do Rui. Então eu fui.
Tava lá caladão, não podia conversar, não podia beber cerveja, tava me divertindo pra dedéu. Daí alguém sugeriu que eu pedisse uma dose de hot whiskey. Me contaram o que era, e eu duvidei que o barman fosse mesmo preparar aquilo sem que eu precise explicar a receita toda. Como assim, whiskey quente com limão? Não só o sujeito preparou, como me explicou que o hot whiskey é mais uma das esquisitices típicas da região. É o jeito que os irlandeses arranjaram pra continuar bebendo até quando ficam doentes. A receita – não muito diferente de qualquer xarope pra dor de garganta – é a seguinte:
- Irish whiskey;
- água quente;
- açúcar;
- meia fatia de limão;
- meia dúzia de cravos.
Os cravos vêm enfiados na meia fatia de limão, que nem mostra a foto aí abaixo. Uma coisa super meiga.
Consegui aproveitar um pouquinho mais da festa, mas quanto à dor de garganta… amanhã cedo é que eu vou saber.
momento paráfrase zeca baleiro
Hoje eu acordei com uma vontade danada de sair de casa de madrugada,
varrer a academia, correr em círculos por 20 minutos, e começar o dia às voltas com katis e tai-chi-chuan.
Na volta, pão de queijo e uma térmica de café preto.
Como em uma manhã qualquer de um outro lugar no tempo.
Olé!
Até que enfim, a saga dos últimos 10 dias chega ao fim. Depois da viagem a Londres e de menos de dois dias (e muito trabalho, e pouquíssimo sono) de intervalo aqui em Belfast, já fui pra Madri capengando. Achei que fosse passar meus cinco dias por lá me escorando nas paredes, mas não foi bem assim: se tem alguma coisa que a capital espanhola não dá, é sono. Os trabalhos no Playlab (o laboratório de experimentação em videogames do qual eu fui participar) foram intensivos, mas os intervalos… aí sim é que não dava tempo pra nada! A melhor definição que consigo encontrar pra Madri é “ensolarada”: não apenas de sol, mas de cores, luzes, sabores, sorrisos e simpatia.
Em primeiro lugar, Madri é uma cidade pra se caminhar. O trânsito se concentra nas grandes vias, formando uma espécie de círculo ao redor do centro da cidade. Ali no meio mesmo, grande parte das ruas é fechada para pedestres – e, se não é, os poucos carros que passam vêm devagarinho. Não há postes com cabos ou iluminação – as luminárias, inspiradas nos antigos lampiões de ruas, se fixam às paredes das casas, e mesmo as placas de trânsito são poucas. O caminho é livre. As ruas estreitas têm prédios de três ou quatro andares de ambos os lados, e cada vez que se olha pra cima a vontade é de ficar por ali mesmo. Ao contrário do Reino Unido, em Madri há cores. E muitas. Prédios amarelos, azuis, cor-de-rosa, vermelhos. Todos os apartamentos têm uma sacadinha de ferro pintado de preto, e parece haver alguma competição pra ver quem capricha mais nas floreiras. É uma viagem no tempo, uma atmosfera assim serena, sossegada, bem no meio de uma metrópole de quase 4 milhões de habitantes. E isso não é a exceção – num raio de dúzias de quadras em torno da Plaza Mayor, bem no centro da cidade, é isso que se vê.
Acho que ando pegando muito no pé de Londres, mas não pude deixar de comparar, sendo que as duas viagens foram tão perto uma da outra. Mas Madri me pareceu prosperar justamente naquilo que Londres falha. Madri é autêntica, alegre, caprichosa, justamente onde Londres é artificial, convencional e displicente. Quase todas as casas (que são todas iguais) em Londres têm um espaço à frente para um jardim. Espaço que os londrinos geralmente deixam vazio, com o concreto à mostra, ou usam pra entulhar de bugigangas (aliás, isso é igual aqui em Belfast). Londres parece ocupada demais para dar atenção a detalhes, enquanto Madri é feita deles. As coisas parecem pensadas com base no gosto, e não apenas na funcionalidade. Tudo é bonito, simpático, convidativo. Os nomes das ruas, por exemplo. Em Londres (e Belfast, de novo) é uma vergonha – quando há algum sinal indicando – o que é muito raro – é uma placa preta com letras brancas grudada em um ponto aleatório de alguma parede. Enquanto isso, os madrilenhos têm uma pintura em um grupo de nove azulejos, ilustrando o nome da rua. Em todas elas.
A cidade, aliás, tem azulejos ornamentados por todos os lados – quando não em monumentos nas ruas, nos interiores das casas e restaurantes. Sempre desenhados, pintados. Detalhes. Os souvenirs, quem ligaria pra eles? Em Belfast, Dublin, Londres, são todos iguais. Muda o nome da cidade, e lá vem a mesma caneca, o mesmo chaveiro, a mesma toalha de mesa. Em Madri, eles são um show à parte: mosaicos, azulejos, esculturas, quadros – muitas vezes reproduzindo obras-primas da arte espanhola, que dispensa comentários. Aliás, eles se orgulham tanto das extravagâncias dos seus artistas modernos que até mesmo a imensa Catedral de La Almudena, ao lado do Palácio Real, tem azulejos e vitrais modernos, no que parecem referências ao Cubismo. Sem falar nos museus do Prado e Reigna Sofia, que juntos guardam uma parcela insubstituível da arte dos últimos 500 anos.
Daria pra falar de Madri por horas… antes de terminar, eu ainda tenho que mencionar o Parque del Retiro, um espaço enorme pra trás do Museu do Prado, e um dos lugares mais pacíficos em que eu já estive. Tanto que tirei uma parte do meu último dia na cidade pra ficar sentado por lá, perto de uma fonte, lendo um livro. Não dá mais vontade de sair. E a comida espanhola, que é espetacular. Me acabei provando paejas, tortillas, cuzcuz, mozarquillas, sartencillas, o tal do jamón ibérico e ainda o melhor chocolate quente que já tomei, de muito longe – servido com churros. Tudo isso enrolando com o meu melhor portunhol, que é divertidíssimo de se falar. A propósito disso, e ao contrário de Budapeste, em Madrid o inglês não serve pra muita coisa. Pra se virar por lá é bom falar um pouquinho de espanhol.
Infelizmente, o encanto tinha que acabar dentro do meu quarto vôo da Ryanair em 10 dias – e, portanto, a 600ª execução da Pequena Serenata Noturna de Mozart, combinada com atrasos e pernas espremidas contra o acento da frente.
Pra terminar, um pequeno episódio pra me fazer sentir bem-vindo de volta à Irlanda. Na chegada ao aeroporto de Dublin (voei por lá porque era mais barato), uma cena inédita: a agente de imigração efetivamente conversou comigo, olhou pra mim, e – pasmem – sorriu! Pela primeira vez, fui tratado como um ser humano na imigração de um aeroporto. E, no ônibus de Dublin a Belfast, a cada praça de pedágio o motorista parava pra bater um papinho com o operador da catraca. Enfim. A Espanha é linda e os espanhóis são divertidíssimos, mas o título de povo mais simpático do mundo ainda é dos irlandeses.
P.S.: Isso pode gerar alguma polêmica entre nós brasileiros, sabidamente muito simpáticos… outro dia escrevo explicando melhor.
P.S.2: Novidade! Fotos abaixo.
“um outro mundo é possível”
Meio fora de contexto, mas eu preciso compartilhar isso aqui:
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4246749-EI8423,00-Um+outro+mundo+e+possivel.html
Esse cara disse tudo. Tem que ler até o fim, a descrição do condomínio em Marte é hilária!
entremetrópoles
Tô com a corda no pescoço com coisas pra preparar antes da viagem pra Madrid, mas acho que se não escrever logo alguma coisa sobre Londres, vou acabar esquecendo. Como, aliás, aconteceu com Budapeste.
Três dias certamente não é tempo suficiente pra se conhecer uma cidade daquele tamanho. Então eu só vou falar de impressões. A principal delas é que Londres não parece de verdade. Toda a região central lembra uma grande arquitetura de Lego, um brinquedão construído pra japonês ver. Evidentemente que não é nada disso: fora a roda-gigante, grande parte das construções vem de uma época em que japonês, pra chegar em Londres, tinha que contornar a Ásia a remo. Acontece que tem tanto turista e imigrante por lá (1/3 da população, segunda as estatísticas), que fica difícil de saber onde estão os ingleses “de verdade”. Pelo que dizem, é melhor nem procurar: Londres é isso aí mesmo, uma paçoca braba que começou a se formar depois da Segunda Guerra, quando o governo inglês abriu as portas pra receber imigrantes e reconstruir sua combalida força de trabalho.
Acontece que isso acaba dando um aspecto muito artificial pra tudo. É exatamente o contrário do que acontece em Budapeste: lá, tudo parece autêntico. Você olha pras paredes com os buracos de bala, e consegue enxergar as guerras tomando as ruas. Olha pros palácios e se sente no meio da realeza austríaca do século XIX. A casa de ópera é a mesma onde pisaram tantos gênios da história da música que hoje a gente admira. Em Budapeste, você olha pro Danúbio e quase escuta o barulho das bombas do Hitler derrubando as pontes todas, uma por uma. As pessoas são de lá, sempre foram de lá, viram as revoluções, viram a guerra fria, viveram e continuam vivendo isso tudo na pele. Elas se misturam com o ambiente, se diluem na paisagem. Você anda por lá e se sente em outro mundo, porém um mundo que existe e faz sentido à sua maneira.
Enquanto isso, Londres me parecia uma colagem. Fui assistir a tal da troca da guarda da rainha, achando que ali encontraria à minha frente uma tradição milenar. Conversa pra boi dormir. A bandinha da rainha tocava jazz, enquanto dezenas de cariocas à minha volta reclamavam do tumulto (???). Não dá pra sentir autenticidade em coisa nenhuma quando se passa ouvindo conversa de brasileiro pra todos os lados o dia inteiro, e todos os vendedores de qualquer coisa que se coma na cidade são indianos.
Por outro lado, a cidade obviamente tem muita coisa interessante pra se ver, e se fazer. Passei metade de uma tarde no Tate Modern, e deu pra ver um pedacinho de uma exposição. Entre as várias disponíveis. O British Museum é outro monstrengo. Depois de horas por lá, malemal consegui bater uma papo com uma meia dúzia de múmias. No domingo à noite o Indioney me levou a um pub onde uma banda de velhinhos toca jazz dos anos 20. Não se acha essas coisas em qualquer lugar.
Dormi três noites na casa do Índio, que mora no Brockley (não tão longe do centro, por sorte) e divide a casa com uma gurizada muito legal. Esse foi outro ponto alto da viagem. E na segunda-feira rolaram os seminários que deram razão ao evento todo. Foram na Senate House – sede do Instituto de Pesquisa Musical da University of London. Não vou aporrinhar ninguém com detalhes teóricos do que rolou por lá. Apenas duas observações bem básicas:
1. Powerpoints e projetores que não se acertam existem em qualquer lugar;
2. A gente que é brasileiro tem que parar com essa síndrome de vira-lata. Não ouvi nada lá muito diferente do que meus orientadores me indicaram durante o mestrado, e que está na minha dissertação. Não é porque esse povo tá na Europa que eles sabem tudo.
Por fim, quando chegar ao Brasil conto os detalhes da minha brilhante incursão ao um pub gay na segunda-feira à noite. Quebrei o recorde mundial da pint bebida mais rápido com a bunda grudada na parede. Mas isso não dá pra explicar por escrito!
Depois coloco as fotos aqui. Por enquanto, vai uma pro povo da BEN!
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