Tchê e os Duendes

procurando feijões. um de cada vez.

Contos de Edenderry

Criei um outro blog pra contar a minha aventura de 2 meses cuidando de uma casa num vilarejo próximo de Belfast. De junho a agosto de 2011, aqui: http://edenderrytales.wordpress.com/

7 de julho de 2011 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

sobre brasileiros e derrotas

Enquanto assistia a um streaming capenga da última rodada do Brasileirão 2010, juntei as peças de um quebra-cabeça mental que andava desarrumado na minha cabeça há tempos. A conclusão apareceu numa frase, simples e direta: brasileiro não sabe perder.

Pois é, não sabe. Vou mencionar três episódios recentes, vindos de realidades bem diferentes, mas com esse traço em comum. Não é preciso muito esforço pra lembrar de outros.

Vou em ordem cronológica.

Episódio número 1: Eleições presidenciais 2010.
Um mês antes do primeiro turno, até as paredes sabiam quem seria o novo presidente da república. Não bastassem as pesquisas indicando vitória da candidata governista com ampla vantagem, todos os ventos sopravam a favor. Economia em ascensão, programas sociais, diplomacia em alta, não parecia haver nada no horizonte capaz de transformar os resultados. A campanha prosseguia de maneira civilizada: os governistas defendiam o governo, a oposição criticava de maneira consciente e construtiva. Seu lema, de grandeza e sabedoria política nunca dantes vista na histórica política do Brasil, era “O Brasil pode mais”. Admitir que existe algo de positivo na administração pública é algo que nenhuma oposição jamais havia feito. E eu pensava “ora bolas, que belo exemplo; parece que a democracia no Brasil finalmente saiu da adolescência”. Pois não durou.
Diante da derrota iminente, a oposição partiu numa cruzada medieval lançando mão de absolutamente tudo. Munido de argumentos que oscilavam entre o baixo e o inominável, um tiroteio cego e vazio tomou conta do país. A imprensa, cuja função no resto da civilização é esclarecer, buscar no meio do caos a informação que interessa, prestou à sociedade um enorme desserviço e resolveu entrar atirando também. Daí pra frente, todo mundo sabe. A derrota civilizada já não servia; era preciso vencer de qualquer jeito, não importando o quão sujo fosse o jogo. Enquanto isso, a maturidade da democracia vai ter que esperar mais um pouco.

Episódio número 2: Daniel Dantas perde causa na Corte Inglesa (http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1172212-EI6578,00.html).
O ponto aqui não é nem o mérito da questão, que não conheço a fundo (essencialmente, o Opportunity é acusado pela Justiça das Ilhas Cayman – uma antiga colônia inglesa – de fraudar documentos e valores de cotas de seus fundos de investimento). O interessante é reparar na maneira como transcorreu o processo. As decisões judiciais aqui no Reino Unido são extremamente rápidas, e as instâncias disponíveis para recurso são limitadas. Após uma investigação policial rápida e eficiente, a sentença de um assassino, por exemplo, é anunciada dentro de poucos meses. Pois acontece que o Daniel Dantas, acostumado a dispor livremente dos intermináveis subterfúgios e artifícios que o sistema judiciário brasileiro oferece aos abastados e espertalhões, não sabia disso. Como resultado, empurrou sua defesa até a Suprema Corte britânica – perdendo em todas as instâncias anteriores. Foi finalmente condenado de maneira inapelável, e vai ter que pagar o mais alto valor de custas da história daquela Corte. Moral da história: decidiu, tá decidido. Se quiser insistir sem razão e fazer os juízes perderem tempo, vai ter que pagar caro.

Episódio número 3: A mala branca do Corinthians.
Última rodada do Brasileirão. A matemática dizia que só havia um jeito do Corinthians ser campeão: vencendo sua partida contra o Goiás, e torcendo para que o Fluminense não vencesse o Guarani. Quer dizer, isso num mundo em que futebol se joga dentro de quatro linhas, e onde ganhar e perder são coisas da vida. Mas não para o Corinthians. Não que a mala branca seja uma invenção da equipe paulista – embora não fosse de se duvidar, visto que o Timão é notório por enfileirar títulos vencidos sob circunstâncias duvidosas. Mas aceitar que o título de campeão brasileiro já não dependia só de si, isso não dava. Foi uma semana inteira de trololó. Os jogadores do Guarani foram tratados como mercenários – e, o pior de tudo, parece que o chapéu lhes serviu. Mesmo já rebaixados e sem nenhum interesse na partida além do bicho corinthiano, jogaram como nunca. Não é de agora; todo ano é a mesma coisa. Se aparece qualquer denúncia desse tipo aqui pelo Reino Unido, não é só a punição que é séria. As pessoas têm vergonha. Isso falta no Brasil.

Essa investigação obviamente não termina numa conclusão tão simplista quanto “brasileiro não sabe perder”. É claro que esse comportamento em particular é parte de um contexto muito maior, que tem motivações e consequências de todos os tamanhos. O que deu pra concluir até agora é que trata-se de um sintoma da mesma fragilidade moral que difundiu pelo país essa instituição abominável que é o tal do “jeitinho brasileiro”. Mas esse assunto fica pra outro dia.

P.S.: Coincidentemente, nos três exemplos acima os inconformados acabaram de fato derrotados. Infelizmente, não é sempre assim. A choradeira, no Brasil, compensa.

6 de dezembro de 2010 Posted by | Uncategorized | 4 Comentários

a outra Belfast

Sim, ela existe! Uma Belfast onde faz um sol bonito, se lagarteia no parque, se ri à toa na rua, se toma café na calçada, se passeia com o cachorro. E eu vou colocar aqui as fotos que é pra não esquecer, porque na realidade… a primavera já era.

30 de julho de 2010 Posted by | Uncategorized | 3 Comentários

Veneza / Bremen / Hannover / Berlim

Pra quem não viu pelo Facebook, aí vão algumas fotos da viagem! Fui pra apresentar um trabalho em Berlim e dei uma esticadinha discreta pela região. Fico devendo o diário de viagem por enquanto, mas ele vem… nem que seja na próxima ida pro Brasil, ele vem!

9 de julho de 2010 Posted by | Uncategorized | 3 Comentários

quando o canário vira currupaco

Ontem levei um papo com um taxista. Quer dizer, foi um papo do tipo dos que eu levo com taxistas aqui – ele fala, eu finjo que entendo. E eles sempre falam. Dessa vez, como o assunto me era bem familiar, entendi o suficiente pra escrever aqui.
Era um apaixonado por futebol, como quase todos por essas bandas. Deixou todos os jogos da Copa gravando em casa, porque o aluguel do táxi custa £25 por dia e precisa de umas boas corridas por aqui pra cobrir isso – táxis em Belfast são muito baratos. Ele chega em casa de madrugada e assiste tudo o que consegue. O que me comoveu na conversa foi a decepção desse sujeito com a seleção brasileira – que ele obviamente despejou pra cima de mim com todo o gosto, enquanto eu não podia fazer nada além de concordar. Descreveu o que é o sentimento geral a respeito do Brasil – o que há de melhor, no esporte mais popular do planeta. Todo mundo gosta do melhor, do bem feito, do feito com vontade. Enche a gente de gosto, de esperança nas pessoas, naquilo que somos capazes de criar. Quando se trata de futebol, é só de 4 em 4 anos que as pessoas têm a chance de ver isso – quando chega a Copa, e o Brasil entra em campo. Nas palavras do taxista, é a primeira coisa que se faz quando sai a tabela de jogos – descobrir quando o Brasil joga.

Não sou um comentarista esportivo, e vou poupá-los de ecoar o senso-comum – “o Dunga acabou com a magia do futebol brasileiro”, etc etc. Quero falar sobre outra coisa. Vendo montes de irlandeses reunidos nos pubs pra ver o Brasil jogar, me ocorreu como não existe nenhum outro período no cotidiano internacional em que as atenções se voltem ao Brasil da maneira como acontece numa Copa do Mundo. Tivemos há pouco a intervenção na questão nuclear do Irã, que foi manchete no mundo todo; temos os biocombustíveis, o Lula, o Cidade de Deus, os Mutantes, os lutadores de jiu-jitsu, até os biarticulados de Curitiba (que eu desminto com todo o gosto do mundo!). Mas essas coisas dão uma projeção limitada a círculos específicos. Nada se compara a quando os canarinhos entram em campo. As pessoas estremecem, bilhões de pessoas. É o Brasil jogando. É o melhor que há.

Essa costumava ser uma repercussão extremamente positiva, na medida em que a seleção brasileira correspondia às mínimas expectativas, tirando felicidade da cartola mundo afora. Agora não é mais assim. É nessa medida que a derrota pra Holanda foi uma coisa muito maior do que um jogo de futebol. É a quebra de um encanto. Não somos um país conhecido em outros aspectos, e o futebol funcionava como um excelente cartão de visitas, que poderia abrir portas em direções mais concretas e importantes – turismo, geopolítica, cultura. Ou no mínimo costumava servir pras pessoas abrirem um grande sorriso quando eu dizia que sou brasileiro. Agora o que eu ganho é um suspiro resignado: “Vocês são o Brasil! Vocês são os melhores! Por que privar o resto do mundo do prazer de vê-los, do prazer de ver o melhor?”

Aqui, eu deixo pros comentaristas esportivos.

4 de julho de 2010 Posted by | Uncategorized | 2 Comentários

sobre tudo o que passa

É costume nas cafeterias daqui desenhar figuras sobre a espuma do capuccino. São feitas com fios muito finos de chocolate ou canela, e os temas não variam muito: flores e folhas são a regra geral – as de plátano são sempre favoritas. Beber o café vira uma experiência complexa. É preciso decidir entre misturar a espuma ao café logo no primeiro momento, destruindo a imagem, ou tentar preservá-la até o último instante. De toda forma, mais cedo ou mais tarde aquela figura, produto único e individual do cuidado de alguém, vai deixar de existir.

Existe algo de paradoxal nisso. A consciência do efêmero, do finito, não é uma característica do Ocidente. A folha de plátano talhada sobre a espuma faz lembrar, guardadas as imensas proporções, as esculturas em areia tradicionais de algumas culturas – são bem conhecidos os exemplos dos índios Navajo, na América do Norte, os Aborígenes e principalmente as mandalas tibetanas. Nesses casos, imagens de extrema complexidade são esculpidas por um sábio ou artesão, derramando-se pequenas quantidades de areia colorida sobre uma superfície. A obra só adquire sentido em função do ritual do qual faz parte; deve ser destruída imediatamente, criando o espaço para seu próprio recomeço.

Nós, herdeiros de uma cultura egoísta e imediatista, temos dificuldade em aceitar o evanescente, aquilo que vem e que passa. Ver a escultura em areia, resultado de semanas de trabalho dedicado, destruir-se pelas mãos do próprio criador, nos enche de pena, nos machuca de alguma forma. Nossa sede de abraçar o mundo é insaciável. É preciso fotografar, gravar, registrar a tudo e a todos de todas as formas; caso contrário, sentimos a experiência nos fugir por entre os dedos. Somos reféns de uma memória cheia de limites e idiosincrasias, e que alimentamos a ilusão de dominar.

Eu falava outro dia sobre a falta de autenticidade de Londres; era exatamente isso. Milhares de japoneses tirando milhões de fotos a cada dia. Fotografando Londres, mas nunca vivendo Londres. Quantas pessoas realmente vivem Londres? Quem é que sabe o que Londres realmente é?

Os filosófos modernos chamam a isso “economia da reprodução”, que veio substituir a antiga “economia da representação” assim que as tecnologias de reprodução se universalizaram a partir de fins do século XIX – o filme fotográfico, o fonógrafo, a fotocópia. Walter Benjamin fala do “desejo das massas contemporâneas de trazer as coisas ‘mais pra perto’, em termos espaciais e humanos, que é tão ardente quanto a tendência de abrir mão da singularidade de cada realidade ao aceitar sua reprodução”.

Pensando nisso, eu saí da cafeteria e andei pela rua dos sebos e brexós. Quem anda por essas lojas de velharias percebe que existe uma atmosfera diferente ali dentro, algo de mais humano e autêntico do que as roupas com a etiqueta da Marks & Spencer (a C&A daqui). Cada objeto ali é único, carrega uma história, tem um significado próprio. Walter Benjamin, se estivesse vivo e eu merecesse um comentário de figura tão digna, certamente me alfinetaria dizendo que esses pôsteres antigos, CDs, livros e camisas tão listradas quanto esquecidas, também foram produto de moldes algum dia, e hoje integram um novo ciclo de simulação – pro qual ele daria um nome sofisticado, tipo “fetiche do colecionador”. E eu, com minha humildade terceiro-mundista, alfinetaria de volta dizendo que é mais-ou-menos nesse ponto de abstração que a filosofia começa a virar uma disciplina neurótica. Mas isso é papo pra outro dia.

Eu não tenho nenhum aforismo genial pra produzir como resultado disso tudo. A gente vai descobrindo coisas todos os dias, às vezes a partir de experiências tão pequenas, e tenta usá-las pra se transformar pra melhor. Mas, assim como as cafeterias, a gente talvez tenha algo pra aprender com os monges budistas e suas areias coloridas; a gente vive sob uma aspiração de controle que é essencialmente insaciável. Às vezes é preciso coragem pra afundar a colherinha e misturar a espuma ao café logo assim, de primeira, sem pensar. Isso é também um símbolo do estar ali, do viver ao invés de preservar. Difícil não derrapar nos clichês ou parecer um ripongo fora de época falando disso, mas toda geração tem seu fundo de verdade…

6 de junho de 2010 Posted by | Uncategorized | 4 Comentários

ruim da cabeça… ou doente do pé?

Pra quem sempre sonhou em saber como é samba de irlandês, o vídeo aí abaixo tá bem ilustrativo!

Sábado passado teve exibição de um documentário sobre a música brasileira no exterior, no cinema da universidade. Fiquei feliz em ver poucos brasileiros por lá – o que significa que a maior parte do público era de estrangeiros, com um interesse autêntico pelo tema. O filme, chamado Beyond Ipanema, é muito bem produzido, informado e atualizado. Mas me pareceu falar de coisa demais – mesmo pra mim, que conhecia bem o tema, acabou ficando cansativo depois de um tempo. Mesmo assim, a plateia saiu doidinha pra chacoalhar os quadris… coisa que obviamente ninguém fez.

A programação da noite era toda brasileira. Depois da sessão, um DJ, no hall/lounge do cinema, tocou vários dos grupos e artistas que apareceram no filme. Mas o ponto alto foi mesmo o início: antes do filme, a Belfast Beat Carnival Band sambou por quase uma hora, na calçada em frente ao cinema. É isso que vocês verão aí abaixo, com absoluta exclusividade: um bando de irlandês batucando debaixo da chuva. Não podia ser mais típico…

22 de maio de 2010 Posted by | Uncategorized | 1 Comentário

por dentro da caixa preta

Abaixo algumas fotos do show do QUBe quarta-feira passada, no Black Box. Não consegui me fotografar tocando, mas dizem por aí que eu tava lá, e cantei Garota de Ipanema no melhor estilo crooner de boteco.
Foi uma surpresa ver a casa cheia pra assistir um show de música experimental. No final das contas, a coisa não era tão esquisita assim – o show foi bastante diversificado, com opções de música eletrônica lounge a improvisação livre, passando por standards de jazz e um trio de brinquedos geneticamente modificados.
Como era dia de aniversário também, ganhei um monte de agrados – que, na tradição irlandesa, se traduzem em doses de whiskey. Alternadas com Guinness. Acho que me cantaram parabéns (ou qualquer outra coisa) no meio da rua, depois que nos tocaram do bar, mas essa parte se perdeu numa zona nebulosa da memória. Ou do fígado.

16 de maio de 2010 Posted by | Uncategorized | 2 Comentários

cubo invade a caixa preta

Essa quarta-feira é o show do QUBe, a banda de vale-tudo que eu falei aqui.

qube invades the black box!

Uma noite da mais pura traquinagem contemporânea. E um pão de queijo pra quem me achar no cartaz acima!

11 de maio de 2010 Posted by | Uncategorized | 1 Comentário

Belfast tropical

Hoje, 7 de maio, depois de 7 meses e 23 dias em Belfast, eu vesti manga curta pela primeira vez. \o/

Verdade que passei frio, mas ainda assim é um evento.

7 de maio de 2010 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário